
Mundos de vida. O meu pensamento hoje, foi para as crianças que vivem em instituições sem a presença de familiares, sem afetos e principalmente sem referências de uma família.
Há uma pergunta que as crianças fazem quando vivem numa instituição:As crianças que vivem com os seus pais e as suas famílias não fazem esta pergunta.
Quem vêm hoje?
A nossa filha ou filho, ao fim da tarde, quando chega a casa, sabe quem lhe vai abrir a porta, que lhes vai dar um abraço, quem lhe pode por um penso no arranhão que fez no joelho na escola ou quem lhe vai contar a história, à noite, antes de adormecer.
Num centro de acolhimento não é assim por mais pequeno e bem organizado que possa ser. As pessoas não são as mesmas. Fazem turnos. As crianças institucionalizadas acabam por aprender que os adultos são substituíveis. Pensam: “O que importa é haver um adulto que cuide de mim”. Por isso, perguntam com frequência: “Quem vem, hoje?”, ou, então, “Hoje, quem vai estar com nós?”. Muitas vezes, até sabem a escala de cor. E isto não é uma boa aprendizagem para se alfabetizar as emoções e os sentimentos das crianças. Elas acabam por pensar: “Não cuidam de mim porque gostam de mim, ou porque são “loucos" por mim. Cuidam de mim porque é o seu trabalho. São funcionários. É sua obrigação”.Os trabalhadores do centro de acolhimento - por mais afáveis e calorosos que possam ser - aprendem também a proteger-se e a distanciarem–se (como faz um professor, um médico, um enfermeiro…). Cada um não pode levar para casa os problemas das dez crianças (ou mais) de quem cuida. Quando pica o ponto, passa o turno ao próximo colega de trabalho.
As crianças que vivem em instituições - sobretudo as que aí permanecem muito tempo e que são a maioria - tornam-se mais frágeis emocionalmente, sentem-se mais inseguras. Os companheiros (as outras crianças que vivem na instituição) também mudam. Chegam e vão-se embora. E entram outros. Neste ambiente de relações frágeis, as crianças institucionalizadas aprendem também a distanciarem-se e a protegerem–se.
Ora, uma criança – especialmente quando é mais pequena – precisa de se sentir amada, precisa de se sentir de alguém. "Precisa de alguém que esteja louco por ela", como diz Bronfenbrenner, um dos pais da psicologia infantil moderna.
Em Portugal, 8.142 crianças separadas dos seus pais crescem, neste momento, em centros em regime de cuidados coletivos. Desde bebés a adolescentes com ou sem irmãos. Mas realmente não precisaria de ser assim. As crianças que não podem viver temporariamente com as suas famílias em que nasceram, não deveriam viver num meio – e sobretudo durante tanto tempo – que não é o mais adequado às necessidades de desenvolvimento humano. Estas crianças necessitam de famílias que as acolham, cuidem, protejam, acarinhem e as estimulem, num ambiente de felicidade, amor e compreensão.
Em Portugal, mais de 95% % das crianças separadas dos seus pais vivem em instituições.;">Na Irlanda, por exemplo, apenas 9% das crianças estão institucionalizadas. A situação portuguesa, desde há 23 anos, não tem paralelo em toda a Europa.
Estas crianças portuguesas precisam de famílias de acolhimento dispostas a criar um espaço para elas, incorporando-as na sua vida e acompanhando o seu crescimento e desenvolvimento até poderem regressar aos seus pais, até poderem ser adotadas ou a até serem maiores.
Para estas milhares de "crianças invisíveis" – que merecem as oportunidades que os nossos filhos têm – mais do que terapias para superarem dificuldades vividas do que verdadeiramente precisam é de ser amadas. Numa boa família acolhimento podem encontrar o amor que seja reparador para as suas vidas.
Ser família de acolhimento é um projeto de vida exigente? É. Mas Portugal é um país solidário. A Mundos de Vida já sensibilizou, encontrou, formou e acompanhou mais de 120 famílias de acolhimento – famílias como as nossas, com filhos, onde cabe mais uma criança à mesa e no seu coração . São famílias de acolhimento que moram em 11 concelhos dos distritos de Braga e do Porto. Estas famílias de acolhimento são famílias fortes que sabem que vão amar uma criança e um dia vão ter de se despedir dela mas o amor é isso mesmo: dar asas e, no dia em que o pássaro se lança do ninho, sentir que se fez a diferença na vida de alguém. As nossas famílias de acolhimento são famílias comuns que deixam uma marca extraordinária na vida das crianças (e elas na sua vida) que não precisaram de ser institucionalizadas.
Precisamos de mais famílias de acolhimento de qualidade. No início de 2016, a Mundos de Vida vai lançar a sua campanha anual . Procuram-se Abraços”, esperando poder aumentar a sua bolsa com novas famílias. Esta é a única forma de podermos garantir que “uma criança tem direito a crescer numa família”.
Todos os anos, milhares de crianças, famílias, escolas e concelhos participam na “Missão Pijama” - uma iniciativa da Mundos de Vida aberta a todos que acreditam nesta causa e que querem ajudar a mudar a realidade. Quando ajudamos a mudar a forma de pensar o país muda e quando somos muitos a mudar a forma de pensar, o país muda mais depressa. Para todos essas crianças um ano de 2016 cheio de alegrias.
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